quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silêncio

Uma pergunta que sempre pairou em meus pensamentos foi sobre a temática da crença religiosa. Pensava sempre, o que leva uma multidão a pensar e agir de forma reverente à imagem de algo que elas nunca viram, que não pode ser tocado... Freud em, O futuro de uma ilusão, nos diz: “Qual é, então, a significação psicológica das idéias religiosas e sob que título devemos classificá-las? A pergunta de modo algum é fácil de ser imediatamente respondida. Após rejeitar uma série de formulações, nos fixaremos na que se segue. As idéias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença. Visto nos fornecerem informações sobre o que é mais importante e interessante para nós na vida, elas são particular e altamente prezadas. Quem quer que nada conheça a respeito delas é muito ignorante, e todos que as tenham acrescentado a seu conhecimento podem considerar-se muito mais ricos”. Acredito que o pai da psicanálise quis fazer referencia ao fato de que mesmo não crendo em uma religião, onde toda a historia se baseia em um livro escrito por homens que disseram “terem sido iluminados por Deus”, qualquer individuo que tenha conhecimento do tema, obtém sua “riqueza” que o autor fala pelo fato de conhecer, de poder discutir sobre.
mento sobre se é certo ou errado ter uma religião ou acreditar em uma força suprema, protetora Entretanto, a proposta deste texto não é polemizar e entrar no debate sobre a existência ou não de Deus, mas sim o teor crítico e racional daqueles que acreditam no ser supremo e naqueles que não são crentes. Colocando uma opinião pessoal e esperando que os leitores me entendam, uma das coisas que sempre noto e fico, de certa forma, incomodado, é a “propaganda” que uma igreja faz, como se a espiritualidade dos seus fiéis dependessem de uma festa de São Benedito que parasse a cidade e que ocupasse uma rua inteira, ou então que uma certa igreja gritasse mais que político em palanque pra angariar votos, estes fatos corriqueiros mas que podem ser visto de outros olhos tinham a minha atenção pois nunca consegui entender o porque disso tudo. A meu modo de ver, quando cremos em algo, não precisamos sair pelos sete mares perdendo nossas vozes e tirando o sono de muita gente com cânticos de adoração e obediência, para não dizer o próprio temor.
Todavia, na ultima semana, um fato me chamou a curiosidade. Pessoas que se diziam ateias publicando em redes sociais toda a sua não crença, todo o seu repúdio, e por que não dizer, todo o seu ódio para com aqueles outros que se diferenciam apenas pelo fato de acreditar. Tenho para mim, que assim como eu não preciso sair anunciando minhas crenças, não é necessário que eu faça o mesmo com a minha descrença. Lembro que a frase parecia com algo “sou feliz sem Deus”, ótimo, que bom que a pessoa está feliz, mas qual o motivo de completar a frase e colocar suas crenças religiosas? Que o leitor me entenda, eu não estou querendo fazer julgae que é digna de temor, a proposta é apenas tentar entender o porque que se faz necessário sair as ruas gritando em algo e bom som aquilo que você pensa. Não saímos por ai gritando: “EU ACREDITO EM FREUD”, “Eu não”. Acredito que nossos conceitos ideológicos são bem vistos quando se apresentam sem alarde, sem balburdio.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Posso pensar que Deus... Sou eu?




Será mal de Psicanalista ser polêmico? Freud, em suas experiências com residência médica começou a teorizar sobre as causas da histeria e aos poucos foi dando forma à nossa querida Psicanálise. Nos seus primeiros trabalhos e pesquisas, ao lado de Breuer, ele chegou a conclusões das menos esperadas e mais abominadas para a sociedade vienense do fim do século XIX.
Com obviedade, quem procura acha, e Freud encontrou. Descobriu na análise da “psique” um escopo para sua vida. Como nada que é novo é fácil de ser aceito, sofreu um bocado, principalmente ao criar a Teoria da Sexualidade Infantil. Mesmo após o seu amigo e mestre Dr. Breuer ter desistido de tão bela e próspera pesquisa, Freud continuou seus estudos.
Em todo o decorrer da história da psicanálise, Freud aparece com algum fato gerador de polêmica. Se não muito me engano, Dr. Breuer era amigo íntimo de um filósofo muito querido, tanto quanto odiado, chamado Nietzsche. Todavia, qual o motivo da citação de tantas figuras ilustres e não é dito nada novo? Porque caros colegas, resolvi falar de um dos assuntos mais polêmicos da vida humana, desde o Imperador Constantino: religião.
Contudo, não pretendo discernir muito sobre o assunto, ou o texto ficará mais longo do que eu recomendo para se ler num blog. A história é a seguinte: através de buscas pela internet, encontrei um website de humor ligado a religião, chamado Um Sábado Qualquer. Lá o personagem protagonista é nada mais, nada menos do que Deus. Agora muitos entendem porque eu cito de Freud e Nietzsche.
O que sabemos dos contos bíblicos? Que Deus criou o homem, à sua imagem e semelhança. Passemos à analise pratica, se o homem já possui toda essa “perfeição” que nós conhecemos, imagina Deus como é! Um cara neurótico, às vezes com crises existencialistas, e de acordo com o Freud do site, muito problemático, porque nem ele mesmo entende suas criações, e bebe todas pra esquecer suas angústias. Compendiando, é bem aquela história que de Todo Poderoso não tem nada, é tão humano quanto qualquer mortal aqui neste planeta, como pode ser visto nas charges do início do texto.
Os colegas de curso e de profissão hão de perceber que a visão que os escritores do site têm de psicanálise, é a mais senso comum possível. Contudo eles se esforçam em ser engraçados e satíricos, e pelo menos usaram uma figura importante, na verdade a mais importante, da psicologia.

Ao que me parece, Freud, que já conhecia Nietzsche por Breuer, certamente leu seus escritos e algum deles deve tê-lo inspirado a escrever Futuro de uma Ilusão e Mal-Estar na Civilização. Nada que todas as teorias de Freud não tenham complementado! É incrível quando lemos O Anticristo de Nietzsche e Futuro de uma Ilusão, o quão parecido eles conseguem ser! Citarei um pouco de cada:

Em toda a psicologia do Evangelho faltam noções de culpa e de castigo; de igual modo, a noção de recompensa. O ‘pecado’, toda relação de distância entre Deus e o homem, é suprimido – essa é precisamente a ‘boa-nova’. A felicidade eterna não é prometida, não está vinculada a condições: ela é a única realidade – o resto é sinal para falar dela.

Os resultados de tal ponto de vista projetam-se em um novo estilo de vida, um estilo de vida especialmente evangélico. Não é a “fé” que o distingue do cristão; a distinção se estabelece através da maneira de agir; ele age diferentemente. Não oferece resistência, nem em palavras, nem em seu coração, àqueles que lhe são opositores. Não vê diferença entre estrangeiros e conterrâneos, judeus e pagãos (“próximo”, é claro, significa correligionário, judeu). Não se irrita com ninguém, não despreza ninguém. Não apela às cortes de justiça nem se submete às suas decisões (“não prestar juramento”). Nunca, quaisquer sejam as circunstâncias, se divorcia de sua esposa, mesmo que possua provas de sua infidelidade. — No fundo, tudo isso é um princípio; tudo surge de um instinto. —

A vida do salvador foi simplesmente professar essa prática — e também em sua morte... Não precisava mais de qualquer formula ou ritual em suas relações com Deus — nem sequer da oração. Rejeitou toda a doutrina judaica do arrependimento e recompensa; sabia que apenas através da vivência, de um estilo de vida alguém poderia se sentir “divino”, “bem-aventurado”, “evangélico”, “filho de Deus”. Não é o “arrependimento”, não são a “oração e o perdão” o caminho para Deus: apenas o modo de viver evangélico conduz a Deus — isso é justamente o próprio o “Deus”! — O que os Evangelhos aboliram foi o judaísmo presente nas idéias de “pecado”, “remissão dos pecados”, “salvação através da fé” — toda a dogmática eclesiástica dos judeus foi negada pela “boa-nova”.

O profundo instinto que leva o cristão a viver de modo que se sinta “no céu” e “imortal”, apesar das muitas razões para sentir que não está “no céu”: essa é a única realidade psicológica na “salvação”. — Uma nova vida, não uma nova fé.” (NIETZSCHE, Friederich. O Anticristo. Capítulo 33. São Paulo: Escala, p. 65-66. 1888)

Não satisfeito agora eu cito Freud, em seu texto o Futuro de uma Ilusão, de 1927. O texto se encontra no capítulo 7, e é apenas um trecho do mesmo, o suficiente para vermos a semelhança:

Tendo identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente defrontados por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante, outros predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas? Não devem as suposições que determina nossas regulamentações políticas serem chamadas também de ilusões? E não acontece que, em nossa civilização, as relações entre os sexos sejam perturbadas por uma ilusão erótica ou certo número dessas ilusões? E, uma vez despertada nossa suspeita, não nos esquivaremos de também perguntar se nossa convicção de que podemos aprender algo sobre a realidade externa pelo emprego da observação e do raciocínio no trabalho científico, possui um fundamento melhor. Nada deveria impedir-nos de dirigir a observação para nossos próprios eus e de aplicar o pensamento à crítica dele próprio...”

O que ambos perceberam é a ilusão de acreditar num Deus todo poderoso que foi capaz de criar um ser tão neurótico como o ser humano. Entre outras muitas coisas.


Erick D'elia

[N.As. - O blog não é de cunho religioso, e nem tem interesse em participar de nenhuma guerra "santa". O espaço é aproveitado para exposição de textos relacionados à psicanálise, simples assim.]