quarta-feira, 4 de abril de 2012

Análise do Sonho #1

Após este tempo ocioso em que este lugar de expressões psicanalíticas entrou no final do ano, voltamos ao trabalho e as idéias voltam a correr nas linhas rabiscadas pela ponta dos lápis.
Freud nos apresenta os sonhos como forma de comunicação do inconsciente, evidenciando desejos que, outrora recalcados, nos vem à consciência através de processos oníricos. O pai da Psicanálise percebe o trabalho que poderia ser realizado no setting para comunicação com o inconsciente.
Um sonho de contexto fundamentalmente edipiano foi trazido para discussão dos autores deste blog. Um rapaz de vinte anos, que mora com os pais e há muito terminou um relacionamento de três anos contou-nos um sonho: “Lembro-me que o sonho começou comigo na minha cama, em meu quarto. Só que meu quarto estava invertido, como se estivesse em um espelho. Minha mãe entrou no meu quarto para se despedir, pois estava indo ao trabalho. Recordo-me que era sábado, pois usava roupas casuais. Ao fechar a porta e eu ouvir as chaves da porta trancando-a virei-me de lado e minha ex estava deitada ao meu lado. Começamos a nos acariciar e tiramos nossas roupas. Após um tempo nas preliminares, quando eu me levantei para penetrá-la, no lugar do clitóris estava o meu pênis. Olhei-a assustado e ouvi as chaves da porta girando. Empurrei a garota para o lado e a cobri com uma manta. Deitei-me na cama e minha mãe entrou dizendo que tinha esquecido de se despedir. Quando ela veio para me dar um beijo no rosto eu acordei.” Após o relato do sonho, ele nos contou o quando se sentia dependente quando ainda namorava a garota e que esta dependência prosperava até então.
Podemos perceber aqui, que o sonho evidenciou exatamente isto. A imagem que ilustra sua dependência era o seu falo posto na garota de quem ele dependia na época do relacionamento.
Freud estabelece através de seus estudos dos processos oníricos que os sonhos são uma tentativa de realização (mesmo que parcial) de desejos, de moções pulsionais que passaram por um processo recalcador. Mas como poderia haver nesse sonho (que se constituiu como pesadelo para o sonhador, portanto, uma experiência desprazerosa) alguma realização de desejo?
Acontece que quando do estabelecimento do recalque aquela satisfação da pulsão que
originalmente causaria prazer passa a causar desprazer pelo simples motivo de ir contra as exigências superegóicas. O pesadelo, então seria a realização de um desejo, por assim dizer, proibido, de dificílima aceitação dentro do sistema de valores morais do sujeito.
Já que está justificada aqui a possibilidade da realização de um desejo através de um pesadelo, que tal mais algumas reflexões? A repetição da entrada da mãe no quarto para se despedir pode ser interpretada como um querer afastar-se da garota pela qual ele ainda se mostra dependente, uma vez que relata que mantém contato? Ou será que isso não diz de um desejo de manter-se dependente, atrelado à mãe, desejo incestuoso, barrado pelas convenções da cultura (o que tem mais a ver com a configuração do sonho e, mais especificamente, do pesadelo)?
Fica aqui aberta à discussão dos leitores em geral quanto à significação aplicada
aos elementos do sonho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Amor(es)

Dentre as questões que a vida abarca é bem provável que a mais abordada por pensadores ao longo da história seja aquela que diz respeito ao amor. Fala-se sobre o amor de todo tipo e se dá as mais variadas classificações: amor de pai, de mãe, de amigo, de filho, de namorado, e assim segue em um sem fim de classificações.
Na Psicanálise não poderia ser diferente. Desde seu início ela se preocupa com isso. Em À Guisa de Introdução ao Narcisismo (1914), Freud propõe uma diferenciação entre a libido do Ego e a libido objetal (ou sexual). Segundo ele, originalmente o Ego estaria investido de libido (uma constituição fortemente narcísica) e, ao longo do desenvolvimento, ela seria parcialmente redirecionada para as relações com o mundo. Nesse mesmo texto encontramos uma analogia, onde esses tipos de energia psíquica estariam respectivamente representados pela fome e pelo amor.
Entretanto, a reflexão acerca disso leva a pensar na possibilidade de conceber a libido do Ego também como uma forma de amor. Amor a si mesmo, amor narcísico e saudável até certo ponto, que Freud considerava característico das pulsões de autoconservação. Nessa linha de pensamento não há nada que não se possa incluir dentro disso que chamamos de amor. Talvez esteja aí justificado esse enorme interesse pelo tema.
Os psicanalistas, ao longo do tempo, continuaram a se dedicar ao estudo dessa temática. Hélio Pellegrino, em seu texto Édipo e a Paixão, trata dos fatores que influenciam na dissolução do complexo de Édipo. Um fator do qual muito se fala, nesse processo pelo qual o conflito edípico precisa passar para a consolidação do Superego, é a introjeção da função paterna, da castração. Hélio não nega a importância disso, mas ressalta algo que também precisa ser levado em conta: a forma como a função materna se coloca nesse processo.
Édipo não conseguiu se libertar dos pais biológicos, que o abandonaram, mas era livre em relação àqueles que o adotaram e acolheram. Tanto que saiu da casa dos pais adotivos para viajar pelo mundo e, sem perceber, se sentiu atraído para perto dos pais biológicos e cometeu parricídio e incesto. Para explicar isso, Pellegrino usa a metáfora do barco no mar. Um sujeito que se encontra em um barco num mar calmo se sentirá seguro e, portanto, livre para não se agarrar ao barco. Esse seria o caso da mãe que acolhe. Por outro lado, se esse mar estiver agitado por causa de uma tempestade, o barco fará de tudo para jogar o sujeito para fora e o sujeito, por sua vez, se agarrará fortemente ao barco. Este é o caso da mãe que abandona ou da mãe truculenta (mas que sempre se entenda mãe não como aquela que gerou em seu ventre, mas qualquer pessoa, da família biológica ou não, do sexo feminino ou não, enfim, qualquer pessoa que desenvolva esse papel. Mãe aqui está dito no lugar de função materna).
Fiz meu Estágio Básico I: contextos sócio educacionais em uma creche e, nessa ocasião, a teoria de Hélio se confirmou para mim. Era perceptível uma dificuldade por parte das crianças de lidar com a angústia de se separar dos pais. E quem mais demonstrava essa dificuldade eram aquelas que tinham pais que se mostravam truculentos quando levavam seus filhos à creche. Eram crianças que choravam mais quando chegavam à creche, eram arredias e de difícil interação com as outras pessoas. Pareciam “aprisionadas”, pois não se sentiam livres para explorar as relações com o mundo e, por outro lado, quando estabeleciam uma transferência positiva com alguém, se apegavam fortemente à pessoa, o que não quer dizer que haviam se libertado, mas que haviam se algemado a outras pessoas, ás quais elas colocavam em uma posição paterna ou materna. Pellegrino resume isso com estas belas palavras: “O amor é o chão da liberdade”. Percebe-se aí uma necessidade que todos temos de receber amor para poder amar, pois ninguém pode dar o que não tem.
Já Contardo Calligaris fala do amor como o maior agente de transformações. Só mudamos por amor. Mudamos por amor dos pais, por amor transferencial pelo analista, por amor pela cultura, por amor a nós mesmos, enfim, sempre por amor. Nunca porque é o certo, porque é necessário ou útil. Esses últimos podem até ser os conteúdos manifestos para justificar a mudança, mas o conteúdo latente (e, portanto, inconsciente) por traz disso tudo é sempre o amor.
Não convém citar aqui uma lista de psicanalistas que se pronunciaram acerca dessa temática, pois que são incontáveis. Mas retornemos mais uma vez a Freud e seu texto À Guisa de Introdução ao Narcisismo (1914), onde ele fala sobre essa dinâmica entre o amor a si mesmo e o amor das relações com o mundo. Nesse escrito há uma afirmação tão bela quanto a de Pellegrino, que de tão importante que é para a Psicanálise, recebe a tarefa de encerrar esse texto: “ Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas, no final, precisaremos começar a amar para não adoecer, e iremos adoecer se, em consequência de impedimentos, não pudermos amar”.

André Elias Cruz Antunes

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mitos e Psicanálise

Muito me chama a atenção a necessidade que nos seres humanos em geral temos de preencher nossas vidas com mitos. E já algum tempo despertou o meu interesse a variedade de mitos que se formam em volta da teoria psicanalítica. Muitos deles oriundos do senso comum.
Um exemplo clássico disso está relacionado a sexualidade. Certamente a maior parte das pessoas que se interessam por psicanalise já ouviram alguem falar que Freud é um pervertido que só fala de sexo. Apenas seres desprovidos de conhecimento psicanalítico podem tirar tal interpretação após ler rapidamente os textos do autor. Ajunte ao desconhecimento e o reducionismo aplicado à sexualidade, logo, não bastaria outra interpretação senão esta.
Existe um outro mito que não está diretamente relacionado à teoria psicanalítica em si, mas a concepção vigente de o que é ciência. Certa vez, conversava com uma mulher, quando ela disse que “não gostava de Freud”, seguiu então o meu questionamento do por quê que havia este desgosto quanto ao psicanalista e a resposta que obtive foi que “ele supõe muito, é muito preconceituoso e machista.”
Não pretendo discutir se Freud era ou não preconceituoso ou machista, mas que o leitor perceba que o que está por trás deste pensamento é a concepção que vigora de que o cientista é um “semi-deus”, um ser puramente racional, resultante de uma cisão cartesiana, onde tudo o que é da ordem do passional, do intuitivo, do pulsional foi, de uma forma milagrosa, expurgada, jogada fora. Esta forma de pensar porem, não irá nos surpreender novamente se lembrarmos que estamos imersos em uma cultura onde o que não aparece em uma revista pseud0-cientifica, não possui cientificidade.
Dessa crítica, o próprio Freud pode se defender quando em “Pulsões e Destinos da Pulsão” (1915)ele afirma logo no primeiro paragrafo: “Ouvimos muitas vezes a opinião de que uma ciência deve se edificar sobre conceitos básicos claros e bem definidos, mas na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições.(...) Entretanto, o progresso do conhecimento não suporta que tais delimitações sejam rígidas, e como ilustra de forma admirável o exemplo da física, mesmo os conceitos básicos que já foram fixados e definidos também sofrem uma constante modificação do conteúdo.”

Em outras palavras, o pensamento cientifico existe por causa das suposições, das perguntas e hipóteses. A ciência não é um espaço de deuses, de seres oniscientes.
Mas também há mitos de fabricação acadêmicas. Logo, neste contexto onde se espera que não haja espaço para o pensamento mítico. Tempos atras, ouvi alguém afirmar que Freud criou instancias psíquicas imaginárias, certamente frutos de alucinação.
Na duvida se rio ou choro, escolhi rir. Em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, Freud se refere a uma herança filogenética a qual chamou de ID. Mais tarde, na relação com o mundo, surge o EGO e depois, na introjeção dos valores da cultura, se constitui o SUPER EGO. São três instancias derivadas uma da outra, no contato com a realidade. Perceba que aqui, estão relacionados aspectos filogenéticos, ontogenéticos e culturais. Aspectos estes que uma grande parte dos teóricos da psicologia consideram relevantes. O que Freud fez, foi dar nomes.
Isso tudo abre espaço para algumas reflexões. Em nossas aulas de Filosofia no segundo grau e nas aulas de Filosofia da Ciência, já na academia, aprendemos que o pensamento mítico é uma das primeiras manifestações de pensamento humano e que pode-se dizer que resulta de uma falta de conhecimento de causa (Por exemplo, os raios eram atribuídos a Zeus, enquanto não havia nenhuma explicação lógica para tal fenômeno). É possível então dizer, que com uma certa segurança que os mitos psicanalíticos originados no que chamamos de senso comum surgem dessa ignorância.
Mas, e essas que surgem em contexto acadêmico? Onde estaria a origem dessa produção mitológica? Para propor uma resposta a essa pergunta, é necessário refletir sobre a teoria psicanalítica em si. Do que ela vem falar? Vem falar de um homem e de seu psiquismo, que é em uma esmagadora parcela, inconsciente. Mas, porque? Porque em seu processo de constituição, ele teve que renunciar a muitas coisas. Aqui chegamos a um ponto crucial: ter que se haver com essas renuncias é um processo muito doloroso e é justamente disso que a Psicanálise vem falar, o que faz com que se levantem resistências contra o retorno do recalcado. E isso vêm em forma de racionalizações, de onde saem esses mitos acadêmicos.
Dessa forma, é preciso diferenciar dois tipo de formação mitológica: Um resultante da ignorância, do não saber, e outro resultante da resistência, ou seja, daquilo que se sabe mas não se quer saber (este ultimo ligado à academia).
Como dizem que um bom trabalho não é aquele que concede respostas, mas que abre espaço para perguntas, aqui fica uma: Se existem diferentes tipos de mito, é preciso lidar com eles de forma diferenciada? E se caso a resposta for afirmativa, que forma seria essa?


André Elias Cruz Antunes.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Silêncio

Uma pergunta que sempre pairou em meus pensamentos foi sobre a temática da crença religiosa. Pensava sempre, o que leva uma multidão a pensar e agir de forma reverente à imagem de algo que elas nunca viram, que não pode ser tocado... Freud em, O futuro de uma ilusão, nos diz: “Qual é, então, a significação psicológica das idéias religiosas e sob que título devemos classificá-las? A pergunta de modo algum é fácil de ser imediatamente respondida. Após rejeitar uma série de formulações, nos fixaremos na que se segue. As idéias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença. Visto nos fornecerem informações sobre o que é mais importante e interessante para nós na vida, elas são particular e altamente prezadas. Quem quer que nada conheça a respeito delas é muito ignorante, e todos que as tenham acrescentado a seu conhecimento podem considerar-se muito mais ricos”. Acredito que o pai da psicanálise quis fazer referencia ao fato de que mesmo não crendo em uma religião, onde toda a historia se baseia em um livro escrito por homens que disseram “terem sido iluminados por Deus”, qualquer individuo que tenha conhecimento do tema, obtém sua “riqueza” que o autor fala pelo fato de conhecer, de poder discutir sobre.
mento sobre se é certo ou errado ter uma religião ou acreditar em uma força suprema, protetora Entretanto, a proposta deste texto não é polemizar e entrar no debate sobre a existência ou não de Deus, mas sim o teor crítico e racional daqueles que acreditam no ser supremo e naqueles que não são crentes. Colocando uma opinião pessoal e esperando que os leitores me entendam, uma das coisas que sempre noto e fico, de certa forma, incomodado, é a “propaganda” que uma igreja faz, como se a espiritualidade dos seus fiéis dependessem de uma festa de São Benedito que parasse a cidade e que ocupasse uma rua inteira, ou então que uma certa igreja gritasse mais que político em palanque pra angariar votos, estes fatos corriqueiros mas que podem ser visto de outros olhos tinham a minha atenção pois nunca consegui entender o porque disso tudo. A meu modo de ver, quando cremos em algo, não precisamos sair pelos sete mares perdendo nossas vozes e tirando o sono de muita gente com cânticos de adoração e obediência, para não dizer o próprio temor.
Todavia, na ultima semana, um fato me chamou a curiosidade. Pessoas que se diziam ateias publicando em redes sociais toda a sua não crença, todo o seu repúdio, e por que não dizer, todo o seu ódio para com aqueles outros que se diferenciam apenas pelo fato de acreditar. Tenho para mim, que assim como eu não preciso sair anunciando minhas crenças, não é necessário que eu faça o mesmo com a minha descrença. Lembro que a frase parecia com algo “sou feliz sem Deus”, ótimo, que bom que a pessoa está feliz, mas qual o motivo de completar a frase e colocar suas crenças religiosas? Que o leitor me entenda, eu não estou querendo fazer julgae que é digna de temor, a proposta é apenas tentar entender o porque que se faz necessário sair as ruas gritando em algo e bom som aquilo que você pensa. Não saímos por ai gritando: “EU ACREDITO EM FREUD”, “Eu não”. Acredito que nossos conceitos ideológicos são bem vistos quando se apresentam sem alarde, sem balburdio.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Posso pensar que Deus... Sou eu?




Será mal de Psicanalista ser polêmico? Freud, em suas experiências com residência médica começou a teorizar sobre as causas da histeria e aos poucos foi dando forma à nossa querida Psicanálise. Nos seus primeiros trabalhos e pesquisas, ao lado de Breuer, ele chegou a conclusões das menos esperadas e mais abominadas para a sociedade vienense do fim do século XIX.
Com obviedade, quem procura acha, e Freud encontrou. Descobriu na análise da “psique” um escopo para sua vida. Como nada que é novo é fácil de ser aceito, sofreu um bocado, principalmente ao criar a Teoria da Sexualidade Infantil. Mesmo após o seu amigo e mestre Dr. Breuer ter desistido de tão bela e próspera pesquisa, Freud continuou seus estudos.
Em todo o decorrer da história da psicanálise, Freud aparece com algum fato gerador de polêmica. Se não muito me engano, Dr. Breuer era amigo íntimo de um filósofo muito querido, tanto quanto odiado, chamado Nietzsche. Todavia, qual o motivo da citação de tantas figuras ilustres e não é dito nada novo? Porque caros colegas, resolvi falar de um dos assuntos mais polêmicos da vida humana, desde o Imperador Constantino: religião.
Contudo, não pretendo discernir muito sobre o assunto, ou o texto ficará mais longo do que eu recomendo para se ler num blog. A história é a seguinte: através de buscas pela internet, encontrei um website de humor ligado a religião, chamado Um Sábado Qualquer. Lá o personagem protagonista é nada mais, nada menos do que Deus. Agora muitos entendem porque eu cito de Freud e Nietzsche.
O que sabemos dos contos bíblicos? Que Deus criou o homem, à sua imagem e semelhança. Passemos à analise pratica, se o homem já possui toda essa “perfeição” que nós conhecemos, imagina Deus como é! Um cara neurótico, às vezes com crises existencialistas, e de acordo com o Freud do site, muito problemático, porque nem ele mesmo entende suas criações, e bebe todas pra esquecer suas angústias. Compendiando, é bem aquela história que de Todo Poderoso não tem nada, é tão humano quanto qualquer mortal aqui neste planeta, como pode ser visto nas charges do início do texto.
Os colegas de curso e de profissão hão de perceber que a visão que os escritores do site têm de psicanálise, é a mais senso comum possível. Contudo eles se esforçam em ser engraçados e satíricos, e pelo menos usaram uma figura importante, na verdade a mais importante, da psicologia.

Ao que me parece, Freud, que já conhecia Nietzsche por Breuer, certamente leu seus escritos e algum deles deve tê-lo inspirado a escrever Futuro de uma Ilusão e Mal-Estar na Civilização. Nada que todas as teorias de Freud não tenham complementado! É incrível quando lemos O Anticristo de Nietzsche e Futuro de uma Ilusão, o quão parecido eles conseguem ser! Citarei um pouco de cada:

Em toda a psicologia do Evangelho faltam noções de culpa e de castigo; de igual modo, a noção de recompensa. O ‘pecado’, toda relação de distância entre Deus e o homem, é suprimido – essa é precisamente a ‘boa-nova’. A felicidade eterna não é prometida, não está vinculada a condições: ela é a única realidade – o resto é sinal para falar dela.

Os resultados de tal ponto de vista projetam-se em um novo estilo de vida, um estilo de vida especialmente evangélico. Não é a “fé” que o distingue do cristão; a distinção se estabelece através da maneira de agir; ele age diferentemente. Não oferece resistência, nem em palavras, nem em seu coração, àqueles que lhe são opositores. Não vê diferença entre estrangeiros e conterrâneos, judeus e pagãos (“próximo”, é claro, significa correligionário, judeu). Não se irrita com ninguém, não despreza ninguém. Não apela às cortes de justiça nem se submete às suas decisões (“não prestar juramento”). Nunca, quaisquer sejam as circunstâncias, se divorcia de sua esposa, mesmo que possua provas de sua infidelidade. — No fundo, tudo isso é um princípio; tudo surge de um instinto. —

A vida do salvador foi simplesmente professar essa prática — e também em sua morte... Não precisava mais de qualquer formula ou ritual em suas relações com Deus — nem sequer da oração. Rejeitou toda a doutrina judaica do arrependimento e recompensa; sabia que apenas através da vivência, de um estilo de vida alguém poderia se sentir “divino”, “bem-aventurado”, “evangélico”, “filho de Deus”. Não é o “arrependimento”, não são a “oração e o perdão” o caminho para Deus: apenas o modo de viver evangélico conduz a Deus — isso é justamente o próprio o “Deus”! — O que os Evangelhos aboliram foi o judaísmo presente nas idéias de “pecado”, “remissão dos pecados”, “salvação através da fé” — toda a dogmática eclesiástica dos judeus foi negada pela “boa-nova”.

O profundo instinto que leva o cristão a viver de modo que se sinta “no céu” e “imortal”, apesar das muitas razões para sentir que não está “no céu”: essa é a única realidade psicológica na “salvação”. — Uma nova vida, não uma nova fé.” (NIETZSCHE, Friederich. O Anticristo. Capítulo 33. São Paulo: Escala, p. 65-66. 1888)

Não satisfeito agora eu cito Freud, em seu texto o Futuro de uma Ilusão, de 1927. O texto se encontra no capítulo 7, e é apenas um trecho do mesmo, o suficiente para vermos a semelhança:

Tendo identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente defrontados por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante, outros predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas? Não devem as suposições que determina nossas regulamentações políticas serem chamadas também de ilusões? E não acontece que, em nossa civilização, as relações entre os sexos sejam perturbadas por uma ilusão erótica ou certo número dessas ilusões? E, uma vez despertada nossa suspeita, não nos esquivaremos de também perguntar se nossa convicção de que podemos aprender algo sobre a realidade externa pelo emprego da observação e do raciocínio no trabalho científico, possui um fundamento melhor. Nada deveria impedir-nos de dirigir a observação para nossos próprios eus e de aplicar o pensamento à crítica dele próprio...”

O que ambos perceberam é a ilusão de acreditar num Deus todo poderoso que foi capaz de criar um ser tão neurótico como o ser humano. Entre outras muitas coisas.


Erick D'elia

[N.As. - O blog não é de cunho religioso, e nem tem interesse em participar de nenhuma guerra "santa". O espaço é aproveitado para exposição de textos relacionados à psicanálise, simples assim.]

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Communicare

A idéia deste blog surgiu durante uma aula de Teoria Psicanálitica na Universidade Federal de Mato Grosso. A intenção é poder colocar as teorias que me surgem no decorrer dos meus estudo de psicanálise, considerando como base a psicanálise freudiana, mas sem deixar de lado outros autores que trabalham com o tema. Será aproveitado o espaço para postagem de trabalhos acadêmicos de relevância para a área, bem como relatórios de estágios onde eu usarei as teorias psicanalíticas.
Aproveitando a deixa, explanarei nesta postagem de hoje meus primeiros esboços sobre algo que veio me intrigando nas ultimas semanas.
Neste mês, venho acompanhando a rotina de alunos de uma escola especial para deficientes auditivos na cidade de Cuiabá, e foi aí que me ocorreu a dúvida: Como a psicanálise poderia trabalhar com um deficiente auditivo, seria a linguagem de sinais suficiente para o analista? E mais, como seriam percebidos os atos falhos e chistes?
O que mais pareceu concreto para mim, foi o texto Linguagem do Silencio: Psicanálise e Surdez de Paulo César da Silva Gonçalves, onde ele aborda a psicoterapia com pacientes surdos. Mais tarde achei minha “menina dos olhos” ao ler o texto de Maria Cristina Petrucci Solé, A Clínica Psicanalítica em Língua de Sinais: algumas reflexões de uma analista ouvinte sobre esta prática, onde a abordagem psicanalítica é usada no atendimento de pessoas com deficiência auditiva.Muito embora eu tenha que confessar que apenas “passei os olhos” por todo o texto, já deu pra perceber que será de grande relevância para um trabalho futuro, alem de que, seu texto não sanou minhas duvidas e sim, fez aparecer outra ainda maior em minha mente.Tenho honra de dizer, que tenho como professora, a Doutora Maria Aparecida Morgado, autora do livro “Da sedução na relação pedagógica: professor-aluno no embate com afetos inconscientes.” e em conversa com a mesma, expus a duvida que havia rondando em minha mente por dias. Me baseei um pouco nos relatos do seu livro para a exposição: como a psicanálise atuaria no campo da deficiência auditiva e como se daria a relação transferencial, entre o deficiente auditivo surdo-mudo e seu professor? Entendemos que em uma criança sem deficiência, a re-edição da relação original acontece e o individuo toma o professor como protótipo dos pais. Acontece todo o processo ambivalente, assim como na relação original, os recalques, as sublimações das pulsões sensuais e todo o conflito edipiano. Mas, e quando falamos de um deficiente auditivo surdo-mudo? O processo se daria da mesma forma? Ou a falta de comunicação articulada, de certa forma, comprometeria a constituição egoica a ponto de influenciar nas fases sexuais decorrentes? Como se daria a relação aluno-professor neste caso, uma vez que o professor trataria de forma mais “especial” este aluno?

R.P.