sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Amor(es)

Dentre as questões que a vida abarca é bem provável que a mais abordada por pensadores ao longo da história seja aquela que diz respeito ao amor. Fala-se sobre o amor de todo tipo e se dá as mais variadas classificações: amor de pai, de mãe, de amigo, de filho, de namorado, e assim segue em um sem fim de classificações.
Na Psicanálise não poderia ser diferente. Desde seu início ela se preocupa com isso. Em À Guisa de Introdução ao Narcisismo (1914), Freud propõe uma diferenciação entre a libido do Ego e a libido objetal (ou sexual). Segundo ele, originalmente o Ego estaria investido de libido (uma constituição fortemente narcísica) e, ao longo do desenvolvimento, ela seria parcialmente redirecionada para as relações com o mundo. Nesse mesmo texto encontramos uma analogia, onde esses tipos de energia psíquica estariam respectivamente representados pela fome e pelo amor.
Entretanto, a reflexão acerca disso leva a pensar na possibilidade de conceber a libido do Ego também como uma forma de amor. Amor a si mesmo, amor narcísico e saudável até certo ponto, que Freud considerava característico das pulsões de autoconservação. Nessa linha de pensamento não há nada que não se possa incluir dentro disso que chamamos de amor. Talvez esteja aí justificado esse enorme interesse pelo tema.
Os psicanalistas, ao longo do tempo, continuaram a se dedicar ao estudo dessa temática. Hélio Pellegrino, em seu texto Édipo e a Paixão, trata dos fatores que influenciam na dissolução do complexo de Édipo. Um fator do qual muito se fala, nesse processo pelo qual o conflito edípico precisa passar para a consolidação do Superego, é a introjeção da função paterna, da castração. Hélio não nega a importância disso, mas ressalta algo que também precisa ser levado em conta: a forma como a função materna se coloca nesse processo.
Édipo não conseguiu se libertar dos pais biológicos, que o abandonaram, mas era livre em relação àqueles que o adotaram e acolheram. Tanto que saiu da casa dos pais adotivos para viajar pelo mundo e, sem perceber, se sentiu atraído para perto dos pais biológicos e cometeu parricídio e incesto. Para explicar isso, Pellegrino usa a metáfora do barco no mar. Um sujeito que se encontra em um barco num mar calmo se sentirá seguro e, portanto, livre para não se agarrar ao barco. Esse seria o caso da mãe que acolhe. Por outro lado, se esse mar estiver agitado por causa de uma tempestade, o barco fará de tudo para jogar o sujeito para fora e o sujeito, por sua vez, se agarrará fortemente ao barco. Este é o caso da mãe que abandona ou da mãe truculenta (mas que sempre se entenda mãe não como aquela que gerou em seu ventre, mas qualquer pessoa, da família biológica ou não, do sexo feminino ou não, enfim, qualquer pessoa que desenvolva esse papel. Mãe aqui está dito no lugar de função materna).
Fiz meu Estágio Básico I: contextos sócio educacionais em uma creche e, nessa ocasião, a teoria de Hélio se confirmou para mim. Era perceptível uma dificuldade por parte das crianças de lidar com a angústia de se separar dos pais. E quem mais demonstrava essa dificuldade eram aquelas que tinham pais que se mostravam truculentos quando levavam seus filhos à creche. Eram crianças que choravam mais quando chegavam à creche, eram arredias e de difícil interação com as outras pessoas. Pareciam “aprisionadas”, pois não se sentiam livres para explorar as relações com o mundo e, por outro lado, quando estabeleciam uma transferência positiva com alguém, se apegavam fortemente à pessoa, o que não quer dizer que haviam se libertado, mas que haviam se algemado a outras pessoas, ás quais elas colocavam em uma posição paterna ou materna. Pellegrino resume isso com estas belas palavras: “O amor é o chão da liberdade”. Percebe-se aí uma necessidade que todos temos de receber amor para poder amar, pois ninguém pode dar o que não tem.
Já Contardo Calligaris fala do amor como o maior agente de transformações. Só mudamos por amor. Mudamos por amor dos pais, por amor transferencial pelo analista, por amor pela cultura, por amor a nós mesmos, enfim, sempre por amor. Nunca porque é o certo, porque é necessário ou útil. Esses últimos podem até ser os conteúdos manifestos para justificar a mudança, mas o conteúdo latente (e, portanto, inconsciente) por traz disso tudo é sempre o amor.
Não convém citar aqui uma lista de psicanalistas que se pronunciaram acerca dessa temática, pois que são incontáveis. Mas retornemos mais uma vez a Freud e seu texto À Guisa de Introdução ao Narcisismo (1914), onde ele fala sobre essa dinâmica entre o amor a si mesmo e o amor das relações com o mundo. Nesse escrito há uma afirmação tão bela quanto a de Pellegrino, que de tão importante que é para a Psicanálise, recebe a tarefa de encerrar esse texto: “ Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas, no final, precisaremos começar a amar para não adoecer, e iremos adoecer se, em consequência de impedimentos, não pudermos amar”.

André Elias Cruz Antunes

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mitos e Psicanálise

Muito me chama a atenção a necessidade que nos seres humanos em geral temos de preencher nossas vidas com mitos. E já algum tempo despertou o meu interesse a variedade de mitos que se formam em volta da teoria psicanalítica. Muitos deles oriundos do senso comum.
Um exemplo clássico disso está relacionado a sexualidade. Certamente a maior parte das pessoas que se interessam por psicanalise já ouviram alguem falar que Freud é um pervertido que só fala de sexo. Apenas seres desprovidos de conhecimento psicanalítico podem tirar tal interpretação após ler rapidamente os textos do autor. Ajunte ao desconhecimento e o reducionismo aplicado à sexualidade, logo, não bastaria outra interpretação senão esta.
Existe um outro mito que não está diretamente relacionado à teoria psicanalítica em si, mas a concepção vigente de o que é ciência. Certa vez, conversava com uma mulher, quando ela disse que “não gostava de Freud”, seguiu então o meu questionamento do por quê que havia este desgosto quanto ao psicanalista e a resposta que obtive foi que “ele supõe muito, é muito preconceituoso e machista.”
Não pretendo discutir se Freud era ou não preconceituoso ou machista, mas que o leitor perceba que o que está por trás deste pensamento é a concepção que vigora de que o cientista é um “semi-deus”, um ser puramente racional, resultante de uma cisão cartesiana, onde tudo o que é da ordem do passional, do intuitivo, do pulsional foi, de uma forma milagrosa, expurgada, jogada fora. Esta forma de pensar porem, não irá nos surpreender novamente se lembrarmos que estamos imersos em uma cultura onde o que não aparece em uma revista pseud0-cientifica, não possui cientificidade.
Dessa crítica, o próprio Freud pode se defender quando em “Pulsões e Destinos da Pulsão” (1915)ele afirma logo no primeiro paragrafo: “Ouvimos muitas vezes a opinião de que uma ciência deve se edificar sobre conceitos básicos claros e bem definidos, mas na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições.(...) Entretanto, o progresso do conhecimento não suporta que tais delimitações sejam rígidas, e como ilustra de forma admirável o exemplo da física, mesmo os conceitos básicos que já foram fixados e definidos também sofrem uma constante modificação do conteúdo.”

Em outras palavras, o pensamento cientifico existe por causa das suposições, das perguntas e hipóteses. A ciência não é um espaço de deuses, de seres oniscientes.
Mas também há mitos de fabricação acadêmicas. Logo, neste contexto onde se espera que não haja espaço para o pensamento mítico. Tempos atras, ouvi alguém afirmar que Freud criou instancias psíquicas imaginárias, certamente frutos de alucinação.
Na duvida se rio ou choro, escolhi rir. Em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, Freud se refere a uma herança filogenética a qual chamou de ID. Mais tarde, na relação com o mundo, surge o EGO e depois, na introjeção dos valores da cultura, se constitui o SUPER EGO. São três instancias derivadas uma da outra, no contato com a realidade. Perceba que aqui, estão relacionados aspectos filogenéticos, ontogenéticos e culturais. Aspectos estes que uma grande parte dos teóricos da psicologia consideram relevantes. O que Freud fez, foi dar nomes.
Isso tudo abre espaço para algumas reflexões. Em nossas aulas de Filosofia no segundo grau e nas aulas de Filosofia da Ciência, já na academia, aprendemos que o pensamento mítico é uma das primeiras manifestações de pensamento humano e que pode-se dizer que resulta de uma falta de conhecimento de causa (Por exemplo, os raios eram atribuídos a Zeus, enquanto não havia nenhuma explicação lógica para tal fenômeno). É possível então dizer, que com uma certa segurança que os mitos psicanalíticos originados no que chamamos de senso comum surgem dessa ignorância.
Mas, e essas que surgem em contexto acadêmico? Onde estaria a origem dessa produção mitológica? Para propor uma resposta a essa pergunta, é necessário refletir sobre a teoria psicanalítica em si. Do que ela vem falar? Vem falar de um homem e de seu psiquismo, que é em uma esmagadora parcela, inconsciente. Mas, porque? Porque em seu processo de constituição, ele teve que renunciar a muitas coisas. Aqui chegamos a um ponto crucial: ter que se haver com essas renuncias é um processo muito doloroso e é justamente disso que a Psicanálise vem falar, o que faz com que se levantem resistências contra o retorno do recalcado. E isso vêm em forma de racionalizações, de onde saem esses mitos acadêmicos.
Dessa forma, é preciso diferenciar dois tipo de formação mitológica: Um resultante da ignorância, do não saber, e outro resultante da resistência, ou seja, daquilo que se sabe mas não se quer saber (este ultimo ligado à academia).
Como dizem que um bom trabalho não é aquele que concede respostas, mas que abre espaço para perguntas, aqui fica uma: Se existem diferentes tipos de mito, é preciso lidar com eles de forma diferenciada? E se caso a resposta for afirmativa, que forma seria essa?


André Elias Cruz Antunes.