quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mitos e Psicanálise

Muito me chama a atenção a necessidade que nos seres humanos em geral temos de preencher nossas vidas com mitos. E já algum tempo despertou o meu interesse a variedade de mitos que se formam em volta da teoria psicanalítica. Muitos deles oriundos do senso comum.
Um exemplo clássico disso está relacionado a sexualidade. Certamente a maior parte das pessoas que se interessam por psicanalise já ouviram alguem falar que Freud é um pervertido que só fala de sexo. Apenas seres desprovidos de conhecimento psicanalítico podem tirar tal interpretação após ler rapidamente os textos do autor. Ajunte ao desconhecimento e o reducionismo aplicado à sexualidade, logo, não bastaria outra interpretação senão esta.
Existe um outro mito que não está diretamente relacionado à teoria psicanalítica em si, mas a concepção vigente de o que é ciência. Certa vez, conversava com uma mulher, quando ela disse que “não gostava de Freud”, seguiu então o meu questionamento do por quê que havia este desgosto quanto ao psicanalista e a resposta que obtive foi que “ele supõe muito, é muito preconceituoso e machista.”
Não pretendo discutir se Freud era ou não preconceituoso ou machista, mas que o leitor perceba que o que está por trás deste pensamento é a concepção que vigora de que o cientista é um “semi-deus”, um ser puramente racional, resultante de uma cisão cartesiana, onde tudo o que é da ordem do passional, do intuitivo, do pulsional foi, de uma forma milagrosa, expurgada, jogada fora. Esta forma de pensar porem, não irá nos surpreender novamente se lembrarmos que estamos imersos em uma cultura onde o que não aparece em uma revista pseud0-cientifica, não possui cientificidade.
Dessa crítica, o próprio Freud pode se defender quando em “Pulsões e Destinos da Pulsão” (1915)ele afirma logo no primeiro paragrafo: “Ouvimos muitas vezes a opinião de que uma ciência deve se edificar sobre conceitos básicos claros e bem definidos, mas na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições.(...) Entretanto, o progresso do conhecimento não suporta que tais delimitações sejam rígidas, e como ilustra de forma admirável o exemplo da física, mesmo os conceitos básicos que já foram fixados e definidos também sofrem uma constante modificação do conteúdo.”

Em outras palavras, o pensamento cientifico existe por causa das suposições, das perguntas e hipóteses. A ciência não é um espaço de deuses, de seres oniscientes.
Mas também há mitos de fabricação acadêmicas. Logo, neste contexto onde se espera que não haja espaço para o pensamento mítico. Tempos atras, ouvi alguém afirmar que Freud criou instancias psíquicas imaginárias, certamente frutos de alucinação.
Na duvida se rio ou choro, escolhi rir. Em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, Freud se refere a uma herança filogenética a qual chamou de ID. Mais tarde, na relação com o mundo, surge o EGO e depois, na introjeção dos valores da cultura, se constitui o SUPER EGO. São três instancias derivadas uma da outra, no contato com a realidade. Perceba que aqui, estão relacionados aspectos filogenéticos, ontogenéticos e culturais. Aspectos estes que uma grande parte dos teóricos da psicologia consideram relevantes. O que Freud fez, foi dar nomes.
Isso tudo abre espaço para algumas reflexões. Em nossas aulas de Filosofia no segundo grau e nas aulas de Filosofia da Ciência, já na academia, aprendemos que o pensamento mítico é uma das primeiras manifestações de pensamento humano e que pode-se dizer que resulta de uma falta de conhecimento de causa (Por exemplo, os raios eram atribuídos a Zeus, enquanto não havia nenhuma explicação lógica para tal fenômeno). É possível então dizer, que com uma certa segurança que os mitos psicanalíticos originados no que chamamos de senso comum surgem dessa ignorância.
Mas, e essas que surgem em contexto acadêmico? Onde estaria a origem dessa produção mitológica? Para propor uma resposta a essa pergunta, é necessário refletir sobre a teoria psicanalítica em si. Do que ela vem falar? Vem falar de um homem e de seu psiquismo, que é em uma esmagadora parcela, inconsciente. Mas, porque? Porque em seu processo de constituição, ele teve que renunciar a muitas coisas. Aqui chegamos a um ponto crucial: ter que se haver com essas renuncias é um processo muito doloroso e é justamente disso que a Psicanálise vem falar, o que faz com que se levantem resistências contra o retorno do recalcado. E isso vêm em forma de racionalizações, de onde saem esses mitos acadêmicos.
Dessa forma, é preciso diferenciar dois tipo de formação mitológica: Um resultante da ignorância, do não saber, e outro resultante da resistência, ou seja, daquilo que se sabe mas não se quer saber (este ultimo ligado à academia).
Como dizem que um bom trabalho não é aquele que concede respostas, mas que abre espaço para perguntas, aqui fica uma: Se existem diferentes tipos de mito, é preciso lidar com eles de forma diferenciada? E se caso a resposta for afirmativa, que forma seria essa?


André Elias Cruz Antunes.

Um comentário:

  1. Acho que um dos maiores problemas mesmo de todos estes mitos, é a problemática encontrada no entendimento das ideias de Freud. Essa ligação que fazem da psicanálise ao sexo é vista de forma equivocada e por que nao dizer que um possivel fruto do proprio recalque? A partir do momento que as pessoas pressupoem que a psicanálise fala de sexo e nao de sexualidade, toda a concepção da teoria se torna incoerente. O gozo na psicanalise não esta ligado tao somente à ejaculação, muito embora a propria seja fruto do gozo da pulsão sexual. Enfim, a psicanálise deve prosperar mesmo com essas deficiencias em seu compreendimento por aqueles que não possuem o conhecimento da mesma.

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